
Os povos indígenas usavam muito esse instrumento como arma de guerra. Atualmente, é usado para a caça, pesca e rituais, e tornou-se também uma prática esportiva, sendo disputada entre aldeias e até com não-indígenas. Na maioria das tribos indígenas brasileiras, o arco é feito do caule de uma palmeira chamada tucum, de cor escura, muito encontrada próxima aos rios. O povo Gavião, do Pará o confecciona com a madeira de cor vermelha chamada aruerinha. Os povos do Xingu utilizam o pau-ferro, o aratazeiro, o pau d'arco e o ipê amarelo. Os índios do alto Amazonas usam muito a pupunha, e as tribos da língua tupi são as únicas que, às vezes, utilizam a madeira das palmeiras. O padrão do tamanho do arco obedece à necessidade de seu uso, de acordo com a cultura de cada povo.
A flecha é feita de uma espécie de bambu, chamada taquaral ou caninha. A ponta é feita de acordo com a tecnologia de cada etnia. Há aquelas flechas mais longas e as pontas tipo serra, muito usada para a pesca. Outras pontas são feitas com a própria madeira da flecha. Alguns povos colocam ossos e mesmo dentes de animais. Há outras flechas praticamente sem ponta, mas com uma espécie de esfera (coquinhos), usada na caça aos pássaros. O objetivo é abater a ave e evitar ferimentos na pele ou danos às plumas e penas. Há também um outro armamento semelhante ao arco, em que se arremessa pedra, chamada bodoque.
A diversidade em seu uso
A necessidade do uso no dia-a-dia levou os povos indígenas à criação de uma variedade imensa de tipos de arcos, flechas e pontas de lança. Antropólogos estudiosos acreditam que o arco e flecha é o instrumento mais utilizado entre os povos indígenas. Os numerosos detalhes técnicos de fabricação, utilização e ornamentação tornam complexo o estudo antropológico dos tipos de arco e flecha em cada tribo. Numa mesma tribo, etnólogas como Berta G. Ribeiro e Wilma Chiara se depararam com diferentes tipos, adequados para determinadas situações. Os povos xinguanos, no Estado de Mato Grosso, são exímios praticantes da pesca com arco e flecha. Na caça de animais de pequeno, médio e grande porte, todos os povos indígenas utilizam o arco e flecha, apesar de hoje, alguns já estarem substituindo-o pela arma de fogo.
Na preparação de seus jovens os guerreiros Ashaninka, que habitam sudoeste do Estado do Acre, fronteira com o Peru. Os Gavião Kyikatêjê e Parakatege, da Reserva Mãe Maria, no sul do Estado do Pará, praticam um exercício chamado de apãnare, que é o lançamento de flecha em que o "alvo" é um guerreiro, que, com sua destreza, concentração e habilidade pára a flecha com as mãos. No passado, os Xavante também tiveram um exercício semelhante, mas hoje quase não é mais praticado. Consiste no arremesso da flecha no sentido horizontal, aparada com a mão, antes de cair ao chão. Os Guaikuru, valentes guerreiros, que desapareceram no começo do século passado, foram os únicos indígenas, exímeos atiradores de arco e flecha, em movimento, montados à cavalo. Outro exercício revelador da habilidade com o arco e flecha, praticado pelos Gavião -Kyikatêjê e Parakatege é chamado de kaipy e utiliza a folha de palmeira, apoiada sobre duas madeiras fixas ao solo. O guerreiro se distancia em aproximadamente 10 a 20 metros, arremessando a flecha em direção à folha da palmeira. A ponta da flecha acerta exatamente o caule e, resvala, ganhando velocidade em busca do seu alvo. Entre esse povo existe a prática de arremesso à distância, praticado também pelas mulheres. Entre muitas tribos, se praticam o exercício de precisão, utilizando frutos nativos como a manga, laranja, caule da bananeira e outros.
A prática como esporte
A primeira atividade no âmbito esportivo intertribal que se tem notícia ocorreu em 1997, no I Jogos dos Povos Indígenas, realizado em Goiânia. A
iniciativa, idealizada pelo índio Carlos Terena, resultou do patrocínio do Ministério dos Esportes e da parceria com o governo do Estado de Goiás do
Comitê Intertribal e o apoio da FUNAI. Nessa primeira edição dos Jogos Indígenas foram usadas as flechas cedidas pela organização dos jogos, não havendo um grande aproveitamento na precisão dos lançamentos. Nos outros jogos que se seguiram nas cidades de Guaíra-PR (1999) e Marabá-PR(2000), cada competidor trouxe os seus próprios arcos e flechas.
Segundo Terena, "ao trazer seu próprio equipamento, o atleta aprimorou sua demonstração e possibilitou o uso mais apurado, pois sendo um objeto de uso pessoal, permitiu o exercício da técnica de cada guerreiro ao retesar a corda, na calibragem da flecha e na habilidade de seu lançamento".
Terena explicou que a variedade de arcos e flechas ganha um único objetivo que é o alvo. Para associá-lo às culturas, os índios se reuniram e resolveram decidiram que o alvo seria o desenho de uma anta, muito caçada tanto no centro-oeste e no sul (I Jogos, em Goiânia e II, em Guairá, no Paraná). Em Marabá, onde os Jogos foram realizados na beira do rio Tocantins, praia do Tucunaré, os indígenas optaram pelo desenho de um peixe, o tucunaré, abundante nos rios da região.
Com a repercussão dos Jogos Indígenas, a Federação Matogrossense de Tiro com Arco criou, em junho de 2001, o I Campeonato Estadual de Arco Nativo, para o qual convidaram os índios Gavião, de Rondônia, e os Xavante, do Mato Grosso. Na competição, os atletas participantes, inclusive os não-índios, tiveram de utilizar o arco nativo, confeccionado pelos próprios índios. No período de 01 a 05 de novembro de 1999, foi realizado o II Campeonato Brasileiro de Arco Nativo, na Chapada dos Guimarães, MT, que contou com a presença de 15 povos indígenas. Com essas experiências, abriu-se um canal de conversação junto ao presidente da Confederação Brasileira de Tiro com Arco. O objetivo futuro é aproveitar essas habilidades indígenas na preparação dos atletas indígenas com as técnicas apuradas, visando a participação em Jogos Olímpicos Nacionais e internacionais.
Como modalidade nos jogos
Prova: O Arco e Flecha é uma prova individual masculina Cada delegação indígena deverá inscrever no máximo 02 (dois) atletas, sendo essa modalidade uma competição individual. Cada atleta terá o direito a 03 (três) tiros, e deverá trazer o seu próprio equipamento (arcos e flechas). Caso haja algum problema no equipamento, o atleta poderá substituí-lo ou solicitar tempo para reparo. O alvo será o desenho de um peixe e a distância de aproximadamente 30 metros. A contagem de pontos reunirá a soma de acertos em cada área do alvo, com pontuação variadas e previamente definidas pela Comissão Técnica. Haverá uma primeira etapa eliminatória, que classificará para a segunda. Nessa fase, inicia-se uma nova contagem de pontos, que irá definir o primeiro, segundo e terceiro colocados. Somente 12 atletas, com as melhores pontuações, disputam a final. Outros detalhes serão definidos no Congresso Técnico da modalidade.
Fonte: http://www.funai.gov.br/indios/jogos/novas_modalidades.htm#001